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IGREJAS ORIENTAIS

Alexandre Henrique Gruszynski

Em um escrito anterior já procurei mostrar que a Igreja, embora Católica, teve seu início no Oriente. Os Apóstolos, que deveriam fazer discípulos de Jesus todos os povos[1], ainda aguardaram em Jerusalém a vinda do Espírito Santo prometido e já no próprio dia de Pentecostes começaram a pôr em prática o que lhes fora determinado.[2]

Mas como, ficando em Jerusalém, não cumpririam a missão de pregar o Evangelho a toda criatura, partiram para outras cidades do Oriente, onde, mediante a sua pregação, conquistaram adeptos e formaram comunidades a que presidiam não só na liturgia mas também na administração. E estabeleceram sucessores, chamados bispos. Essas comunidades, em torno dos Bispos, ganharam o nome de Diocese ou Eparquia. A certa altura o Apóstolo Pedro, que presidia à comunidade de Antioquia, mudou sua sede para a cidade sede do Império Romano (que dominava então boa parte do Oriente).

A liderança de alguns desses Bispos sobre toda uma região onde seus colegas, também Bispos, tinham as suas comunidades resultou em que se lhes desse o nome de Patriar­ca, e eles desempenhavam um papel unificador dos liderados e respecti­vas comunidades, especialmente no que dizia respeito à disciplina jurídica, às perspectivas teológicas e à forma de cele­brar a liturgia,.

Ao conjunto dos seis Patriarcados do Oriente (dos quais posteriormente se desmembraram algumas Igrejas às quais igualmente foi reconhecida autonomia), com o respectivo povo, chama-se de Igreja Oriental, ou, melhor, Igrejas Orientais. Ao povo ligado ao Patriarcado de Roma e ao que resultou da expansão deste chama-se de Igreja Latina ou Ocidental.

Na Igreja Latina coincidem Patriarca e Papa na mesma pessoa; o Papa é o Patriarca do Ocidente[3], embora Bento XVI tenha mandado excluir este título.

Nas Igrejas Patriarcais, entre o Eparca e o Papa está a autoridade do correspondente Patriarca. Mas há Igrejas Orientais de direito próprio[4] que não são patriarcais, embora procedentes das tradições patriarcais; a estas preside o assim chamado Arcebispo-Maior, ao qual se aplica, no que couber, o disposto relativamente aos Patriarcas Orientais[5]. E pode haver ainda outras Igrejas autônomas, Metropolitanas ou não[6].

A vinculação a tal ou qual Igreja Oriental, ou à Igreja Ocidental ou Latina, deu-se circunstancialmente pelo território, pois a comunidade dos fiéis tinha correspondência com sua moradia. As migrações, porém, não quebraram essa ligação, de modo que o cristão, mesmo saindo de seu território, continuou vinculado ao seu modo de ser fiel: perspectiva teológica e de espiritualidade, liturgia, regras de conduta. Sendo a liturgia o elemento mais palpável dessa vinculação, a própria vinculação ganhou o nome de rito, palavra que, nesse sentido, designa não só o modo peculiar de celebrar, mas também a pertinência a tal ou qual Igreja, seja uma das Orientais, seja a Latina.[7] O critério de pertinência, pois, não é territo­rial, mas pessoal, e essa pertinência a uma Igreja de direito próprio se transmite, em regra, de geração em geração, como qualidade da pessoa.

Ingressa-se na Igreja pelo batismo. O batismo deve ser celebrado, em regra, no rito dos pais, mas se for em outro, isso não muda a vinculação, que, pelo batismo, o fiel adquire com o rito, ou seja à Igreja de direito próprio dos pais. Se os pais pertencerem a ritos diversos, o filho pertencerá à Igreja (de um deles) que eles, em acordo, houverem escolhido; na falta de acordo prevalece o rito do pai (não o que o pai queria). Mas quem é batizado após completados 14 anos de idade pode escolher a Igreja (Oriental ou Latina) a que quer pertencer.[8] É possível passar do rito latino para outro: o cônjuge latino pode, ao casar ou na constância do casamento, passar ao rito do outro cônjuge; dissolvido o casamento pode retornar à Igreja Latina. Também mediante autorização da Santa Sé é possível essa passagem, e essa autorização se presume se um fiel latino pede para passar para uma Igreja Oriental que conte com uma Eparquia dentro do mesmo território e ambos os Bispos Diocesanos manifestarem a sua concordância.[9] Em ambos os casos os filhos menores de 14 anos acompanham o pai ou a mãe nessa mudança de rito, mas ao completarem 14 anos podem retornar à Igreja Latina.

O costume de participar da Liturgia de certo rito, por mais prolongado que seja, não acarreta adscrição a esse rito.

Essas regras são as da legislação ocidental relativas à pertinência a uma Igreja de direito próprio, mas as normas genéricas para as Igrejas Orientais são análogas (com alguns detalhes a mais). Entretanto, numa perspectiva tipicamente oriental, não é permitido ao marido oriental passar à Igreja Latina em razão de seu casamento com uma mulher latina.

É preciso cuidado para não confundir cristãos orientais com cristãos ortodoxos.

A certa altura da História as Igrejas autônomas (isto é: não dependentes de outro Patriarcado) da Armênia e da Caldéia, como também a de Alexandria, romperam sua unidade com a Igreja Universal ao assumirem teses doutrinárias divergentes sobre Jesus Cristo: o nestorianismo (dupla personalidade) e o monofisismo (não à dupla natureza), este com sua forma moderada, o jacobinismo. Por motivos menos teológicos houve períodos de ruptura também entre a Igreja de Bizâncio e o Papa, que culminaram como o “grande cisma do oriente”, em 1054 (cisma=corte, separação).

Ocorrida essa última separação, os orientais ligados à liderança bizantina continuaram a chamar a si próprios (e a denominação foi generalizadamente aceita) de ortodoxos (orto=certo; doxa=louvor), uma vez que os outros grupos orientais (nestorianos e monofisitas) não aceitavam a doutrina correta da Igreja; eles sim. Contudo houve grupos da Igreja Copta (de Alexandria) como da Igreja da Armênia, da Igreja da Caldéia, da Igreja Antioquena e da Bizantina, bem como comunidades derivadas dessas, que se mantiveram na unidade da Igreja ou a ela retornaram. Esses, apesar de “ortodoxos” no sentido pleno da palavra, são conhecidos como Orientais Unidos (na Ucrânia: Uniatas), constituindo uma parcela muito pequena do total dos Orientais; os demais são dissidentes.

Os orientais ditos ortodoxos, portanto, não aceitam a autoridade do Papa sobre as suas Igrejas; os demais dissidentes orientais têm, além disso, um problema de doutrina teológica divergente. A busca pela unidade, especialmente junto com os ortodoxos, tem sido intensa nos últimos tempos, com visitas do Papa aos dirigentes ortodoxos e vice-versa. Note-se que os orientais separados têm verdadeiros Bispos e Sacramentos plenamente válidos[10].

As Igrejas Orientais que aceitam o primado do Pontífice Romano e, assim, são reconhecidas como sendo uma «Igreja de direito próprio», são as seguintes:

 

  1. da Tradição de Alexandria:

Copta

Etiópica (copta com elementos bizantinos)

  1. da Tradição Antioquena:

Malankar (Índia)

Maronita  (Líbano)

Síria

  1. da Tradição Armênia:

Armênia

  1. da Tradição Caldaica ou Sírio-Oriental:

Caldaica – Irak e adjacências

Malabar – liturgia própria

  1. da Tradição Bizantina (Constantinopla):

(segundo o Anuário Pontifício)

Albanesa

Bielorrussa

Búlgara

Eslovaca

Greco-Melquita

Grega

Húngara

Ítalo-Albanesa

Macedônia

Romena

Russa

Rutena

Ucraniana

(de Križevci – Croácia)

  1. da Tradição Bizantina (Constantinopla)

(segundo outras fontes)

Grego-católica albanesa

Grego-católica bielorrussa

Grego-católica bizantina

Grego-católica búlgara

Grego-católica croata

Grego-católica eslovaca

Grego-católica helênica

Grego-católica húngara

Grego-católica macedônia

Grego-católica melquita

Grego-católica romena

Grego-católica russa

Grego-católica rutena

Grego-católica sérvio-montenegrina

Grego-católica tcheca

Grego-católica ucraniana

(Comunidade Grego-católica georgiana)

 

Os sistemas litúrgicos dessas Igrejas  podem ser agrupados assim:

1) caldaico

2) siro-malabar

3) siro-ocidental

4) maronita

5) copta

6) etiópico

7) armênio

8) bizantino

 

Os Melquitas, os Maronitas e os Armênios têm Bispo próprio no Brasil, com sede em São Paulo (o Armênio em Buenos Aires). Os Ucranianos também têm, com sede em Curitiba. Os demais cristãos orientais domiciliados no Brasil têm como seu Ordinário próprio, desde 1951[11], um Bispo Latino, atualmente (desde 28 de julho de 2010) o Arcebispo Latino de Belo Horizonte[12].

Há atualmente mais Maronitas no Brasil que no Líbano.♠

NOTAS:

[1] Mateus 28, 19-20.

[2] Convém ler, a respeito, na Bíblia, o breve Cap. 2 do Livro dos Atos dos Apóstolos. A leitura dos Capítulos sucessivos desse Livro é bastante esclarecedora de como a Igreja se foi desenvolvendo nessa primeira época.

[3] Alguns outros Bispos (Arcebispos) da Igreja Latina têm o título de Patriarca, mas na Igreja Latina esse título é meramente honorífico, não envolve qualquer jurisdição peculiar: Patriarca de Lisboa, Patriarca Latino de Jerusalém, Patriarca de Veneza.

[4] Em latim: sui iuris.

[5] Cf. Código dos Cânones das Igrejas Orientais (CCEO), Cân. 151, 152

[6] Cf. CCEO, Cân. 155, 174

[7] Cf. CCEO, Cân. 28: O rito é um patrimônio litúrgico, teológico, espiritual e disciplinar distinto pela cultura e pelas circunstâncias da história dos povos, pelo qual se exprime o modo de viver a fé de cada Igreja de direito próprio.

[8] Cf. Código de Direito Canônico, Cân. 111, 112.

[9] Rescrito da Secretaria de Estado de 26 de novembro de 1992. AAS 85 [1993], p. 81.

[10] Cf. Cân. 844; 1127, § 1.

[11] Decreto Cum fidelium, 14nov1951, da Congregação para as Igrejas Orientais;

[12] Para mais dados sobre as Igrejas Orientais no Brasil, pode ser consultado o site:

http://www.igrejascatolicasorientais.com